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por Eliene Rodrigues
TEXTO APRESENTADO NA DISCIPLINA DE "CORPO, DANÇA, PERFORMANCE" NO CURSO DE INTERPRETAÇÃO TEATRAL/UFU-MG, SOB ORIENTAÇÃO DE RENATA MEIRA (JULHO/2005)
Andamos todos os dias. Visualizamos corpos e corpos. Trombamos com pessoas. Buscamos novas profissões. Adquirimos novas posturas, novos trejeitos. Nos emocionamos com acontecimentos que envolvem pessoas. Nos encantamos com as expressões de outras pessoas. Nos espelhamos em outras pessoas e, nem sempre percebemos a função que nosso corpo representa simbolicamente. Raramente nos perguntamos o que nossos corpos revelam, o que nossos corpos dizem, o que nossos corpos desejam.
Estar vivo corporalmente é compreender a forma interior do nosso corpo. Despertar a consciência da existência de um corpo simbólico é um trabalho interessante, gradativo e árduo e, de certa forma, depende de estudos teóricos e pesquisa prática. Embutido nas expressões corporais existe toda uma simbologia. É quase impossível compreender o “corpo simbólico” sem remetermos ao mito.
Na lida com o desconhecido, o homem criou o mito. As imagens míticas são a exteriorização do corpo humano. Keleman expõe os mitos como padrões de corporificação, porque nos indicam como fazer nossa forma pessoal a partir da nossa dotação natural biológica. Geralmente quando falamos em mito, imaginamos apenas as idéias. Lembramos do vocábulo “filosofia” e nem atentamos que uma imagem mítica é a forma da anatomia falando sobre si mesma. (Keleman 1987:25).
Não podemos fugir do processo de corporificação, pois esta nos propicia nada menos que a experiência de estarmos vivos. E assim, somos capazes de perceber nosso passado e presente corporificados. Corporificados de uma vida histórica. Ora, o mito relata uma história inventada pelos homens para explicar aquilo que não souberam explicar. Esses relatos provocam em nossa consciência as imagens míticas. A nossa consciência portanto, é organizada pelo nosso próprio corpo. Carregamos tanto a nascente mítica quanto o conhecimento do corpo.
Interessante seria se parássemos e refletíssemos como o nosso corpo encena e reage aos diferentes papéis que assumimos em nossas vidas e na sociedade, aos papéis que aspiramos, ordenamos, já que o mito tem a faculdade de nos influenciar. Tendo ou não conhecimento dos mitos conhecidos ou desconhecidos sempre vivemos as histórias herdadas. Keleman nos ensina que a mitologia está estruturada nas células. Cada espermatozóide, cada óvulo, contém uma história que é recriada no crescimento total de cada célula. Isso é parte da nossa história. (Keleman 1987:29).
É normal que enxerguemos nosso corpo como coisa, como apenas um processo biológico definitivo. Enxergando assim, não direcionamos nosso olhar para nosso interior. E certamente por isso, ficamos presos, mesmo que inconscientemente, nas imagens mitológicas herdadas por nós. Fixados em tais imagens, deixamos de viver nossa própria experiência e “adquirir” ou “construir” nossa própria imagem.
Adquirimos posturas sociais refletidas na nossa forma de caminhar, sentar, mover, que sem dúvida, traçam nosso comportamento pessoal. Tais posturas resultam de imagens míticas passadas de geração para geração. Nossa expressão corporal reflete nosso berço. Revela as imagens corporificadas pela nossa família, pelas pessoas do nosso convívio, pelas pessoas que elegemos como parâmetros de modelo. Nossos pais, por exemplo, adquiriram na sua educação, uma expressão corporal através de seus pais. É assim o repasse, o resgate da mitologia repassada de tempos em tempos.
Retroagir no tempo é perceber quão fixa é a imagem idealizada, herança de nossos antepassados, de nosso passado histórico. Trata-se de uma imagem idealizada e raramente construída por experiência própria. Trata-se de uma imagem mitificada, acatada como reveladora (explicação do inexplicável – mito), inquestionável e por nós herdada de forma incontestada. Trata-se de uma imagem que refletimos como nossa imagem corporal. Dificilmente nos despertamos para entender tamanha simbologia que nossos corpos carregam interiormente.
Vivemos uma imagem idealizada e não uma experiência própria e pessoal que nos propiciaria a descoberta da imagem própria. Penso uma imagem com característica individual - não o individual enquanto singularidade, porque cada ser é único, mas um “individual” no aspecto da construção consciente de expressão corporal de acordo com o próprio interior.
Ao observar a realidade atual, torna-se perceptível o quanto as pessoas se iludem com imagens de um corpo perfeito propagadas pelo capitalismo. Corpo esse que impõe determinada postura, jeito de caminhar, de se vestir. Corpo perfeito tradutor da imagem do belo, do sucesso, do bem-estar e da alegria. Um corpo perfeito que se o indivíduo o adquire torna-se “capacitado” para ir onde e fazer o que quiser. Enfim, essa propaganda atual e essa mitificação do belo que criam essa imagem no indivíduo e que será expressada corporalmente, traduz a imagem de um corpo não interiorizado, um corpo que não tem expressão consciente e sim uma expressão copiada, muitas vezes superficial. Um corpo sem cor. Adornado e sem vida. Apagado entre os holofotes da sociedade e que não reflete seu interior. Um corpo sem “movimentos pessoais” mas com movimentos tornados próprios de uma personalidade copiada. Personalidade copiada que está viva, mas sem vida própria. Personalidade copiada sem que o “próprio corpo” (indivíduo) experimentasse algo e criasse sua imagem a ser exteriorizada.
O mito do super-homem bem revela isso. Ora, há tempos compramos a imagem de um corpo belo, forte, saudável. Características-padrões impostas pelo sistema. Os indivíduos que vestem inconscientemente ou não? essa “super-imagem-homem”, nem sempre olharam para dentro de si, vivenciaram suas próprias experiências na criação de suas imagens próprias. Ao contrário, “vestiram” o uniforme da imagem heróica e tornaram-se corpo daquela imagem.
Nesse sentido, o corpo tornou-se o molde das heranças mitológicas, quaisquer que sejam os mitos. É difícil o despertar desse “molde”, dessa “forma”, uma vez que a sociedade é reflexo comportamental e corporificado dessa herança.
O responsável pela criação de uma imagem anatômica dos acontecimentos presentes ou passados é o próprio cérebro. O fluxo de experiências, forma de emoções, movimentos e sensações fazem com que cérebro crie respostas do corpo.
Cabe observar que concomitante à imagem imposta pela própria sociedade, existem as imagens criadas pelo nosso próprio corpo que deseja e cria uma visão futura. Mas, se essa visão, esse desejo não se corporifica, inexiste expressão e resposta. Nesse contexto está o processo biológico. O desejo pode ser uma imagem no cérebro ou uma imagem em ação. O desejo do soma organiza uma imagem de ação. (Keleman op. cit. Campbell 1987:47)
Relatos pessoais do autor explicitam esse aspecto abordado:
Campbell: Tenho uma lembrança na minha história que é bastante importante. Nos últimos anos da faculdade, os meus verdadeiros interesses eram tocar numa banda de jazz e praticar atletismo. A música e o atletismo eram as coisas às quais eu realmente estava ligado. (...) Fui para a Europa como acadêmico (...). Eu não estava fazendo isso por ninguém, mas por mim mesmo. (...) Eu passara um ano estudando o material filológico da antiga gramática francesa antiga relacionada ao latim medieval. De repente, eu compreendi: não me importava a mínima com as leis da etimologia das palavras (...). O que realmente me prendi àquele material era a parte mitológica. Com essa decisão, abandonei o Ph.D., abandonei toda aquela coisa. Aquilo nunca me tocava. Era uma decisão de vida, porém, feita sobre uma escolha de imagens. Será que as imagens desse caminho acadêmico somam uma experiência para mim ou são simplesmente algo que estou levando para conseguir a recompensa de um título de Ph.D.? Ou eu devo seguir a minha estrela? (Keleman 1987:48)
Isso revela que a nossa experiência propicia uma imagem somática interior. Imagem essa que pode conflitar com as imagens dadas pela sociedade para estruturarem nossas vidas. Assim, se a imagem imposta pela sociedade é incompatível com a nossa expressão corporal orgânica, ela não será corporificada com profundidade.
Curioso é o fato de que nossa imagem corporal serve de meio de comunicação, revelando nossas sensações, emoções ou dores. Sempre temos uma imagem somática gerada pelo nosso interior que atua como uma imagem tanto para nós mesmos quanto para os outros.
A imagem é uma estrutura viva, afirma Keleman. (Keleman 1987:50)
Noutra ponta, estudos revelam que os mitos fazem parte das tradições populares. As diversas danças populares explicitam claramente o corpo simbólico. Texto extraído da obra “Bailarino-Intérprete-Pesquisador” da pesquisadora e bailarina Graziela Rodrigues traz riquíssimos apontamentos sobre configurações e significações do corpo a partir de pesquisa de campo feita por ela e alunas junto aos mestres de algumas manifestações populares.
Graziela expõe que os sentidos através dos quais a pessoa interliga-se ao sagrado, a impulsionam para reagir simbolicamente (Rodrigues 1997:43). Para a pesquisadora, a qualidade de estrutura física possibilita o recebimento do campo simbólico, bem como a sensibilidade na apreensão dos símbolos faz com o que o corpo chegue a ganhar esta estrutura. (Rodrigues 1997:43).
Sua obra descreve a partir da pesquisa, a relação do corpo com os rituais, o que resulta na própria dança. Partindo da anatomia, do corpo físico, a autora especifica as partes do corpo (inferior: pés, joelho e pelve; superior: coluna, tronco, mãos e cabeça; ventre: centro - encontro das forças, parte da manutenção) e suas significações relativas aos rituais e construtivas da dança. Certo é que existem várias modalidades de dança. Em todas, é muito significativa a relação do corpo com a terra, não deixando de mencionar importância do céu também. Os pés penetrados na terra, alimentam-se da seiva para o sustento do próprio corpo. O enraizamento na terra de um corpo levantado que eleva agradecimentos e preces ao céu.
Riquíssima é a linguagem dos pés, visto que conduzem e traçam os percursos do corpo. Há ainda diferenciações nos movimentos masculinos e femininos a partir dos próprios pés. Os pés também denotam significados diferentes nas diversas danças. As letras das canções são compatíveis com os movimentos e relatam as experiências vividas e os mitos acreditados. Segundo Graziela, o movimento interior foi um dos aspectos mais instigantes observados em suas pesquisas, por ter esclarecido os significados dos movimentos dos dançantes (Rodrigues 1997:63). As pesquisas insistentemente nos conduziram a um imenso coração que interliga as mais variadas manifestações, agregadoras de uma resistência cultural. Em cada uma delas há uma história, que situa e caracteriza na festividade em questão (Rodrigues 1997:63).
A própria autora assevera que os fundamentos imbuídos de segredos repassados para pessoas que apresentam condições de guardá-las ou levá-las adiante é um aprendizado que possibilita à pessoa que o recebeu abrir o seu percurso interior, ocorrendo um processo elaborado a partir do qual imagens que percorrem a mente ganham representações no corpo, delineando as vibrações, as sensações e os sentimentos. (Rodrigues 1997:67)
Por tudo isso, o corpo exterioriza a imagem criada pelo próprio corpo. Cada parte do corpo expressa o seu interior. Cada parte do corpo expressa os sentidos, as emoções, sensações. Cada parte do corpo expressa conscientemente ou não, nossas crenças individuais ou coletivas, nossos desejos, nossas tradições culturais, nossas impressões mitológicas. Vasto é o campo do corpo simbólico e suas significações. Olhar para o corpo com outro olhar é perceber que nossas expressões refletem nossa alma. É perceber a interligação entre o físico e o psíquico. É perceber a beleza de enxergar nossa exteriorização corporal com nosso olhar interior, porque ela parte do próprio interior.
REFERERÊNCIAS
KELEMAN, Stanley. Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 2001. p. 22-66.
RODRIGUES, Graziela. Bailarino-Pesquisador-Interpréte: Processo de Formação. Rio de Janeiro:1997. p. 43-67.
Bento Huzak Andreato
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