
Vassouras com seus cerca de 35 mil habitantes tem, nos últimos anos, procurado aplicar investimentos no
Agroturismo e no
Turismo Histórico-Cultural como forma de buscar um
desenvolvimento sustentável para a região, já que se localizam no seu município a maioria das antigas fazendas imperiais remanescentes do riquíssimo
Ciclo do Café acontecido no
Vale do Médio Paraíba no século 19. A própria cidade de
Vassouras, a mais importante da província fluminense no período, teve seu centro histórico tombado pelo
IPHAN em 1958, propiciando um programa de visitas turísticas centradas no seu patrimônio arquitetônico.
A principal iniciativa nessa direção tem sido o
Festival Vale do Café
que aconteceu agora em julho de 2007, em sua quinta edição consecutiva,
e que durante dez dias trouxe música, principalmente instrumental, para
Vassouras e as cidades vizinhas de
Piraí, Valença, Barra do Piraí, Mendes, Paulo de Frontin, Paty do Alferes e
Rio das Flores.
O Festival, uma idéia da harpista carioca
Cristina Braga e do violonista maranhense radicado no Rio
Turíbio Santos,
os dois com renome e carreiras internacionais, tem sido um sucesso de
público desde a sua primeira edição em 2003. A favor disso conta o
extremo cuidado com a programação escolhida trazendo sempre nomes de
qualidade da música instrumental brasileira (bem como também alguns
cantores) como
Leo Gandelman,
Duo Fel,
Carlos Malta, Arthur Moreira Lima, Daniela Spielmann, Guinga, Paula Santoro, Victor Biglione, Quadro Cervantes e muitos outros.
Cristina Braga, desde o início, embora com pouco conhecimento, fez
questão de abrir algum espaço para os grupos ligados as manifestações
das tradições populares, que eram pouco conhecidos fora de suas
comunidades. Excetuando-se a
Folia de Reis, extremamente popular em Vassouras (e de grande alcance por todo o interior fluminense) e a
Capoeira (organizada nacionalmente), o
Jongo e Caxambu (que na verdade são a mesma coisa), o
Maculelê, a
Caninha Verde e o
Calango
não tinham, fora de seus redutos, qualquer visibilidade e mesmo no seu
interior sofriam um processo de esvaziamento, por conta, entre outros
motivos, da cerrada oposição das
igrejas evangélicas que se espalham pelas comunidades em todo o estado.
Em 2005, durante a terceira edição do Festival, o evento tentou incluir
algumas dessas manifestações populares utilizando o amplo espaço da
praça e até mesmo a torre da igreja com canhões de luz num roteiro
teatralizado que buscava um grande impacto visual. O que se observava
era a tentativa de trazer esses grupos para uma proposta de show
musical, consoante todos os outros artistas contratados, mas
completamente afastada do que os grupos consideravam sua linguagem e
seu espaço de atuação.
Procurando-se um contato mais de perto, até mesmo para identificar as
manifestações dessas comunidades para sua inserção no Festival,
chegou-se a
André Jacques Monteiro,
estudante de História e professor de terapias corporais em Vassouras,
que atuava muito próximo a elas por conta do projeto Movendo Saúde, da
Secretaria de Saúde que lhe permitia manter um contato estreito e
constante (desde 2002) com mais de uma dezena de
Unidades de Saúde da Família por todo o interior do município. André tornou-se o interlocutor inicial para o contato com essas comunidades.
Para dar visibilidade ao conjunto dessas manifestações, a direção do
Festival foi buscar no carnaval carioca um formato que pretendia
atender a essas necessidades: o desfile. O que se percebeu é que, ao
contrário do
samba-de-enredo,
estávamos falando de elementos musicais totalmente diversos e
diferentes entre si, e com suas danças e instrumentos completamente
inadequados a um desfile nos moldes carnavalescos.
Um formato híbrido acabou surgindo, experimentado na edição anterior e
aprimorado este ano com a participação das produtoras culturais
Vânia Mattos e
Marina França, do jornalista local
José Luiz Medeiros Jr., de
André Jacques Monteiro e da cantora, compositora e percussionista
Girlei Miranda que ajudou a coordenar o trabalho musical: Um Cortejo único, o
Cortejo das Tradições (idéia de André, inspirado nos trabalhos de sua mãe, Lena Martins da Cooperativa
Abayomi)
onde todos os grupos desfilam em “alas” tendo a frente as Rezadeiras
(também conhecidas em outras regiões como benzedeiras), saindo do
Memorial de
Manuel Congo em direção a praça principal da cidade, cantando em conjunto uma mesma “música-enredo” (composta por
Ricardo Medeiros e Cristina Braga) com o suporte de uma banda de percussão (ao estilo bloco carnavalesco) organizada pelos alunos do
Programa Integração pela Música – PIM, ong de Vassouras.
Ao final desse cortejo os grupos ocupam, todos ao mesmo tempo, espaços
pré-determinados na praça onde realizam apresentações simultâneas. Ao
cair da tarde e já entrando pela noite, com a ajuda de
spots de iluminação, as rodas causam um grande efeito fazendo do encerramento do
Festival Vale do Café um belo espetáculo visual.
Turistas e visitantes, bem como a população geral de
Vassouras,
se deparam ali com danças, cantos e músicas com as quais pouco contato
têm durante o ano. Mestres da tradição popular tem ali um espaço de
visibilidade que é raro em outras ocasiões.
Mesmo assim, esses Mestres percebem que o caminho para o seu
reconhecimento efetivo ainda não se confirma totalmente. A própria
forma do
Cortejo
encontra alguma resistência. As roupas são o elemento mais visível
dessa inquietude. Os figurinos produzidos por uma experiente dupla de
figurinistas e carnavalescos,
Samuel Abrantes e
Suely Gerhard,
embora de grande apelo visual, carecem de traduzir totalmente as
necessidades simbólicas desses grupos, até por não terem sido por eles
discutidas e questionadas em profundidade. A
Caninha Verde de Ferreiros (um dos distritos de Vassouras) inclusive nem chegou a utilizá-los. O
Cortejo,
enquanto desfile pelas ruas, parece deixar pouco à vontade alguns dos
grupos, embora de modo geral todos tenham gostado do evento, pela
oportunidade do congraçamento.
A solução para a “apresentação” inicial desses grupos, caso seja
mantida, talvez tenha que buscar algum outro formato. Na cidade de
Cordeiro, assisti a um encontro de vários grupos de
Folia de Reis
que assomavam a praça principal vindo de diferentes direções, todos
cantando e dançando seu próprio repertório. Mas conciliar grupos tão
diversos como
Calango, Jongo, Maculelê e
Capoeira será sempre problemático.
No entanto, o que parece estar em jogo, de um lado é o modo como o
Festival enxerga e determina a participação desses grupos na sua
programação, e de outro as reais necessidades e aspirações desses
grupos.
A primeira e visível determinação é a de constranger todos os grupos,
num só dia, no espaço inclinado da praça, numa espécie de “reserva
indígena” que nada tem a ver com a organização territorial que
originalmente os grupos utilizam. Se para a
Capoeira isso não é problema, acostumados historicamente a improvisar espaços onde fosse possível, a
Caninha Verde,
por exemplo, se ressentiu de um “chão” firme onde sua dança possa
ressoar e se expressar com mais autoridade, conforme comentou
Telma Barbosa Sant’Anna, uma das líderes do grupo de Caninha Verde de
São Sebastião dos Ferreiros. Para
Nilton Dias da Rosa, o “Seu Filhinho Santana”, um dos mais antigos cantadores da Caninha Verde de Vassouras o saldo foi positivo.
João Henrique Barbosa, jornalista local, em comentário
aqui mesmo no Overmundo, é quem melhor expressa essas dúvidas:
“(…) Ficamos no fio da navalha. O Cortejo dá visibilidade a
manifestações que muitos vassourenses mesmo não conheciam. (…) Cabe aos
atores envolvidos garantir que este risco seja sempre um risco
calculado. E que o Festival se esforce para não perder a ligação com a
comunidade. Se este elo não for intensificado, todos sairemos perdendo.”
Eis a lista dos Grupos participantes do Cortejo das Tradições
no encerramento do Festival em 2007:
Rezadeiras (de Vassouras)
Caninha Verde de Ferreiros (Vassouras)
Capoeira e Maculelê Abadá (Vassouras)
Arte Rasteira Capoeira (Vassouras)
Caxambu Renascer de Vassouras
Grupo de Calangueiros (Vassouras)
Folia de Reis de Vassouras
Jongo de Pinheiral
Jongo de Arrozal (distrito de Piraí)
Jongo de Barra do Piraí
Folia de Reis de Valença
Folia de Reis de Paulo de Frontin
Folia de Reis de Vassouras
PIM – Programa Integração pela Música
(Vassouras – comunidade participante)
(Foto e texto de Egeu Laus publicado originalmente no Overmundo em 16/8/2007 sob licença Creative Commons)